Invocando o Mal nos cinemas

 

Cagaço.


Se alguém me pedisse para definir Invocação do Mal (The Conjuring) em uma única palavra, cagaço seria uma definição bem plausível.


Ao longo dos anos fomos bombardeados por diversos filmes de terror que pretendem se tornar o novo “Exorcista” (o clássico de 1973) da vez ou nos fazer esquecer de um dos melhores thrillers de suspense dos últimos tempos “Seven”, mas poucos obtém real sucesso e atingem seus pretensiosos objetivos. Fui assistir Invocação do Mal com meu característico pé atrásno que diz respeito” (como diria nosso ex-presidente) a filmes de terror, e tudo começou pela manjadíssima sinopse do mesmo: “Um casal muda para uma casa nova ao lado de suas cinco filhas. Inexplicavelmente, estranhos acontecimentos começam a assustar as crianças, o pai e, principalmente, a mãe”.  

 

Sério? Casa onde coisas caem do nada? Fenômenos assustadores? Família assustada?

 

 

 

Se você, caro padawan, parar para pensar por uns cinco segundos, virão uns dez, senão mais, filmes com exatamente esse mesmo roteiro em sua cabeça, mas o interessante em Invocação do Mal é que o diretor James Wan (que também esteve à frente de Jogos Mortais, II, III, IV, V...) e os roteiristas e irmãos Chad e Carey Hayes (de a Casa de Cera) moldam de forma muito criativa esse roteiro, a princípio, clichezento, tornando o filme diferente do que estamos acostumados a ver.


Quando a família de Roger Perron (Ron Livingston) se muda para a tal casa assustadora nos arredores de Harrisville, aparentemente tudo está dentro dos conformes, exceto para a cadela Sadie, que se recusa a entrar no local, já pressentindo que algo estranho e maligno esta hospedado ali. Enquanto o pai, a mãe Carolyn (Lili Taylor) e as cinco filhas começam a se instalar na casa, aos poucos eles vão percebendo que alguns segredos já não tão ocultos querem ser revelados, a começar por um estranho porão que as meninas encontram ao brincar de esconde-esconde (ou cabra-cega, seja lá como se chama isso por aquelas bandas!). Do estranho porão começam a surgir não só sons aterrorizantes que começam a perturbar os moradores à noite, como também perigos físicos, como os hematomas que começam a se formar do nada na pele da mãe Carolyn, que não consegue explicá-los. 

 

 

Assustada com aqueles estranhos fenômenos, Carolyn decide procurar a ajuda de dois famosos “demonólogos” que andam pelos Estados Unidos dando palestras e mostrando casos reais de exorcismo e paranormalidades a plateias de estudantes. Assim, ela consegue convencer Ed (Patrick Wilson, o Coruja de Watchmen) e Lorraine Warren (Vera Farmiga, a mãe de A Órfã), depois de muito custo, a fazerem uma visita a casa, e ver afinal, o que Diabos (sem trocadilhos) está se passando por lá.  

 

Ed e Lorraine ganham tanto destaque na trama quanto a família Perron, e em paralelo aos casos assustadores de poltergeist  na casa, é mostrado ao público todo o background  do casal, incluindo aí um trauma recente vivido por ela em uma sessão de exorcismo (em que ela aparentemente se sente ameaçada por um demônio), o quarto em sua própria casa onde Ed armazena todo tipo de item amaldiçoado que ele recolhe dos casos que trata (incluindo aí a boneca diabólica que aparece nos trailers do filme) e até mesmo a pequena filha do casal Judy, que fica aos cuidados da avó enquanto os dois saem para trabalhar. 

 

O filme se passa todo na década de 70, e os recursos tecnológicos que Ed e sua equipe de caça-fantasmas utilizam para captar presenças sobrenaturais, bem como toda a cenografia, a trilha sonora e as vestimentas dos personagens nos dão uma excelente ambientação setentista, o que denota um cuidado muito grande com a produção por parte de James Wan. Como é bem enfatizado, o filme é baseado em fatos reais, o que dá um tempero todo especial para a história e nos prende na poltrona de forma empolgante.


De volta à história, Ed e Lorraine percebem ao conviver com a família Perron que uma presença muito maligna ronda toda a propriedade, e quanto mais eles tentam estudar sobre o passado daquela casa, mais a família corre perigo. Enquanto as jovens filhas do casal começam a ser afligidas pela presença de vultos em seus quartos, ataques de sonambulismo e até mesmo possessões durante as noites, Ed e Lorraine começam uma corrida desesperada para tentar salvar a mãe delas, Carolyn, que parece ser o alvo principal do espírito de uma malévola bruxa que habitou aquela casa no século XIX e que foi vítima de um enforcamento pelo dono das terras. Seu objetivo? Atormentar Carolyn até que ela sacrifique as próprias filhas. 

 

Diferente de sucessos do terror recentes como REC, Atividade Paranormal e até mesmo a sanguinolenta série Jogos Mortais, Invocação do Mal aposta no susto puro e simples sem grandes intervalos, o que faz com que o espectador salte na poltrona do cinema quase a cada minuto. A sequência de fatos que se desenrola desde o desaparecimento da cadela Sadie até o a cena de encerramento do filme é sistematicamente feita de uma forma que nos prende a história.

 

Mesmo os sustos mais previsíveis (aqueles de câmera em panorâmica para os lados ou do abrir de uma porta para ver o que tem do outro lado) são extremamente bem feitos, e conduzem bem o clima até o ato final, que deixa pouco a dever para filmes de exorcismo como Exorcismo de Emily Rose e outros genéricos. A virada de roteiro não é lá das mais geniais e nem das mais surpreendentes, mas até ali estamos tão atraídos pelo enredo que nem nos importamos, o que nos permite curtir as lágrimas rolarem com o desfecho de certa forma comovente da trama. 

 

Além dos sustos e saltos na poltrona que valem muito a pena para quem está ali na sala justamente para isso, destaco a atuação de todo o elenco do filme, que dá um show de interpretação tornando críveis suas reações de terror e medo. Dentro do elenco adulto, Patrick Wilson, Vera Farmiga, Lili Taylor e Ron Livingston estão muito convincentes em seus papéis, fazendo o público emergir naquele clima assustador do filme com suas reações genuínas ante o desenrolar da trama.

 

Já entre as crianças sou obrigado a destacar o talento das pequenas Joey King (Christine), Mackenzie Foy (Cindy), Kyla Deaver (April), e Sterling Jerins (Judy Warren, a filha de Ed e Lorraine) que passam toda a emoção e desespero em suas expressões e gestos com um grandioso talento. Só tinha visto um elenco infantil assim tão talentoso em Atividade Paranormal 3, e não há como torcer para que as pequenas escapem das garras da bruxa perturbada. 

 

Vale também a citação as gracinhas Shanley Caswell (Andrea) e Hayley McFarland (Nancy) que interpretam as filhas mais velhas do casal Perron, e que não deixam nada a dever ao restante do elenco.   

Bem recebido pela crítica norte-americana, A Invocação do Mal  custou a bagatela de 20 Milhões de Doletas e já faturou mais de 200 Milhões na Terra do Tio Sam, atraindo e agradando o público principalmente por seu tom sóbrio e sério ao tratar o assunto exorcismo. Diferente do que aconteceu comigo, algumas cenas podem desagradar o público moderno, como aquelas em que são usados rituais da Igreja Católica para afugentar a coisa ruim que habita a casa da família Perron, porém, é necessário se levar em conta a época em que o filme retrata para entender certos meios utilizados que hoje, parecem obsoletos.

Mesmo já tendo sido antecipada no trailer, a sequência da brincadeira de esconde-esconde entre Carolyn e April (que culmina na palminha ao pé do ouvido) e a tensão causada pela desgraçada da caixinha de música que pára de tocar revelando algo no espelho é de arrepiar os cabelos do sovaco. Disparados esses são os melhores segundos de apreensão da película.

Nunca mais ficarei relaxado quando o relógio bater 3:07 da madrugada...

Nota : 9 (E só não é 10 por causa de algumas cenas MUITO previsíveis).

 

 

 

NAMASTE!

Rod Rodman